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quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Natal


Presente de final de ano


      Hoje em dia é muito difícil encontrar alguém que queira dar alguma coisa... Todos só querem receber... E até mesmo o ato de dar algo é um meio e não um fim (dar, pensando em receber alguma coisa e não pensando em ajudar...). Tudo está transformado em mercadoria: quantificado e precificado...

     Até mesmo o tempo que uma pessoa cede à outra (ou a uma causa) é considerado como investimento... Dar pensando em conquistar (amor ou carinho...), dar pensando em conseguir algo em troca (um contato profissional ou prestígio, ou mesmo um bem material qualquer...). Parece que o capitalismo e o consumismo devoraram muitos dos bons valores que nós já tivemos enquanto seres humanos! Ou talvez tenhamos sido nós mesmos que "substituímos" (ou estamos substituindo?) esses valores? Sei lá...

      Não estou dizendo que eu sou o oposto disso, muito pelo contrário... São poucos os presentes e de poucas pessoas que eu consigo aceitar sem me sentir em dívida com a pessoa, com a “culpa” na consciência que só será aplacada quando eu conseguir presentear de volta algo pelo menos no mesmo "valor" do que eu recebi... Afinal, especialmente no final do ano, o ato de presentear tem muito mais sentido de trocar que em qualquer outra época...

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Habitual falta de sorte...



Habitual falta de sorte


          Um dia desses joguei na loteria. Durante semanas fiz planos para quando tivesse aquela montanha de dinheiro em minhas mãos.
          O sorteio havia sido no dia seguinte à compra do bilhete, mas tamanha era a euforia com os possíveis destinos e a quantidade de dinheiro do prêmio que não conferi o resultado. Era bom sonhar com as mudanças, mas sempre com um pé na realidade porque mesmo com esperanças de ganhar não mudei minha rotina de vida.
          Dois meses depois fui conferir o bilhete e percebi que mais uma vez não havia ganhado nada. Não me abalei diante disso, talvez por sempre ter sabido que é muito difícil ser premiado.
          A grande "jogada", para mim pelo menos, de se apostar na loteria sempre foi poder sonhar com o prêmio porque a vida não é como a gente quer: entre o sonho e a realidade, existe um anjo mau que resiste ao nosso desejo.

O texto acima é de minha autoria e faz parte de um exercício de Português II da faculdade, foi pedido que fizéssemos uma narrativa que terminasse de certo modo (exatamente a parte sublinhada). O exercício valia 10 , mas eu tirei 7, devido à "falta de criatividade"... Na minha opinião eu achei a narrativa um pouco curta e "dura", mas de modo algum pouco criativa.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Resenha: Invenção e Memória

Fonte: Telles, Lygia Fagundes. Invenção e Memória, Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2000.


              Um desmembramento do espírito humano

        Esta resenha tem por objetivo uma crítica dos contos: “Que se chama solidão”, “Suicídio na granja”, “Se és capaz”, “Cinema Gato Preto”, “HEFFMAN” e “O Cristo da Bahia”, que se encontram no livro “Invenção e Memória”, ganhador do prêmio “Jabuti” de 2001 como Livro do Ano de Ficção, e também premiado pela APCA, de autoria de Lygia Fagundes Telles. Objetiva uma crítica mais voltada para a temática dos referidos contos e algumas das singularidades que possuem em comum. O livro contém quinze contos, mas esta resenha objetiva somente a análise dos sete primeiros excluindo-se o conto “A dança com o anjo”. A obra apresenta textos que contam lembranças da infância e adolescência da autora, onde ela apresenta a própria visão de fatos que ocorreram nesse período, confundindo-se aí as lembranças reais com as invenções próprias da imaginação da autora, fato esse que justifica o título do livro. Lygia Fagundes Telles é atual ocupante da cadeira 16 da Academia Brasileira de Letras, nascida em São Paulo em 1923, passou a infância no interior do estado, mas voltou à capital onde terminou seus estudos.
        O Conto “Que se chama solidão” dá início à narrativa das memórias, onde a parte marcante é a convivência da autora com sua família, mãe e tia, dando-se destaque às pajens. A primeira foge com o namorado. A segunda, Leocádia, ensina a canção de onde é tirado o título do conto. Esta, grávida, tenta abortar, mas acaba ferindo-se mortalmente: “... Enfiou a agulha de tricô lá no fundo, meu Deus!...” (p. 13). Neste conto, à autora, é apresentado o fato da morte, e advindo deste fato a recorrente solidão que já havia experimentado com a fuga da outra pajem. Neste conto a morte de Leocádia pode ser considerada como suicídio, mesmo que acidental em uma tentativa de abortar, tornando este conto uma abertura para a discussão do seguinte acerca do suicídio.
        O segundo conto, “Suicídio na granja”, apresenta também uma jovem e questionadora Lygia que ao saber de um suicídio faz indagações a seu pai, queria saber se qualquer ser poderia se matar: E bicho, bicho também se mata? (p. 19). Esses questionamentos seriam lembrados futuramente quando ela passava férias em uma fazenda e conheceu dois bichos que mantinham uma estranhíssima amizade (p. 19). Este conto se desenvolve sobre as peculiaridades dessa amizade entre um galo e um ganso. Em determinado momento o ganso é morto para servir de prato em um jantar na fazenda. A partir de então a autora relaciona o suicídio, o qual perguntara a seu pai no passado, com o fato de o galo estar definhando pouco a pouco. Neste conto a autora tenta levar o leitor a perceber um pouco mais do que a aparência de animal, fazer com que ele possa responder à pergunta que ela própria havia se feito: Só gente? (p. 19). A discussão sobre o bem e o mal está representada neste conto na hora em que o cozinheiro ficou com medo de atrasar o jantar e escolheu o que quis e na escolha, acabou levando o coitado (p.21) do ganso. Ficando a cargo do leitor a reflexão sobre a  atitude do cozinheiro. A temática do bem e do mal será retomada posteriormente e com mais ênfase em “Cinema Gato Preto” e também no último conto desta crítica.
        No conto “Se és capaz...” a autora acompanha um rapaz desde a adolescência, passando pela idade madura e chegando à velhice, concentrando-se a narrativa nas duas últimas. Este é o único conto desta “coletânea” que não tem uma “Lygia” personagem. Como ponto central do conto há a relação do rapaz com o pergaminho recebido do avô. Por toda a vida ele é atormentado pelos princípios descritos no poema do pergaminho. Princípios estes que não consegue seguir completamente, e tenta sempre achar uma desculpa para que não consiga segui-los e, assim, uma desculpa para o próprio avô a quem descreve como: uma lembrança amável (p. 36) em meio a uma infância tão injusta, com tantos desentendimentos na família (p. 36). Na velhice é onde o poema o perturba mais chegando a achar culpa na própria degradação do país e da sociedade (“... esse próximo cada vez mais irascível, mais exaltado...” p. 34), sem levar em conta que foi durante a sua idade madura que ele ignorou mais as lições do poema (“... embora já tivesse traído à beça aquela dona...” p. 34).
        Em “Cinema Gato Preto” a jovem autora está com seu irmão e uma amiga em um cinema. Vendo um filme de terror ela começa a se indagar sobre as sutilezas do bem e do mal se utilizando, inclusive de outras lembranças (“... E o tio Garibaldi? Onde ficava o tio? Apareceu uma noite para perguntar ao pai se o Diabo costumava ler jornal...” p. 43). Utiliza-se de comparações entre fatos reais e de filmes para tentar explicar a complexa relação entre esses dois conceitos. Esse conto também apresenta a visão, já muito crítica, da autora: “Eram cerimoniosos os homens-morcegos da cena muda, poucos gestos, pouca fala” (p. 44). A discussão sobre o bem e o mal retorna em posteriormente em “O Cristo da Bahia”.
        Em “HEFFMAN” a narrativa se encontra deslocada para a adolescência da autora. Conta-nos o fascínio que sentia pelo ambiente da livraria Jaraguá, embora fosse uma admiração disfarçada, sempre afetando uma certa indiferença  (p. 48). É também nessa livraria que tem contato mais direto pela primeira vez, (“... Nunca pensara antes em teatro mas era tão jovem e tudo para mim era novidade com um certo grão de ousadia, de loucura...” p. 48), com a interpretação teatral na peça que empresta título ao conto, a qual tinha sido escrita pelo dono da livraria. Este conto fala das novas experiências da autora ao mesmo tempo que fala de sua inexperiência em outros áreas, das escolhas que tem de fazer e da pesagem dos prós e dos contras (“... Minha família (só pensava em minha mãe) e os meus amigos iam estranhar. Ou não?...” p. 49), (“... Prejuízo político?  Social?...” p. 49). Há forte presença de lembranças e no último parágrafo é utilizado o globo terrestre como metáfora para a vida e essas mesmas lembranças (“... Dando-lhe um leve impulso eu poderia fazê-lo girar no seu eixo mas agora queria vê-lo assim parado...” p. 54) e também um sentido de calor e vontade de permanecer mergulhada nas lembranças (“... Abri as mãos para aquecê-las no vidro...” p. 54), único lugar onde pode reencontrar alguns dos amigos da época (“... era aquela noite longínqua: a livraria estava aberta e todos ainda estavam vivos...” p. 53).
        “Cristo da Bahia” encerra este recorte crítico do livro. Este conto fala de religiosidade e, ainda, do bem e do mal. Em uma comparação das palavras do padre, que não admitia pensar em roubo (“... Ele falou em estragos e não em roubos, pensei...” p. 56), com a interpretação da autora dada à história de “Oscar Wilde, O príncipe feliz (p. 57), onde ela vê a andorinha que “retira” as joias da estátua para distribuir aos necessitados da cidade, como uma obediente emissária da vontade de Deus, vendo na atitude do padre um entendimento de que: quem quer que tenha retirado as joias, o tenha feito por extrema necessidade, e não por mal.
        A conclusão que se chega ao se ler esses contos é que a autora busca incutir no leitor uma busca por reflexões quanto a um maior entendimento da alma, no conto inicial ela cogita, inclusive, a vida após a morte ao ver o fantasma de Leocádia. No segundo conto, além da discussão do suicídio há ainda a defesa dos animais, que são capazes, segundo a autora, de sentimentos tão sutis quanto os dos seres humanos, como a tristeza profunda, a dor de uma perda importante, uma dor na alma. No terceiro conto ela discute essas dores e o quão profundas e duradouras elas podem ser, indo desde a infância e, em não sendo cuidadas, podendo chegar até mesmo à velhice. Em “Cinema Gato Preto”, discute as sutilezas do bem e do mal, assunto abordado superficialmente em “Suicídio na granja” e aprofundado em “Cristo da Bahia”, como dito anteriormente, e como cada pessoa vê essas “nuances” de modo diferente. Em “Heffman” a autora aborda os caminhos pelos quais, em sua juventude teve de passar em uma exibição de saudosismo, e escolhas demonstrando ao leitor que a saudade e as experiências são formadoras da alma. No último conto desta crítica ela retoma a discussão do bem e do mal, e a visão de cada indivíduo dos dois. A importância das lembranças na formação do ser marca “Heffman” e “Se és capaz”, mais do que os outros como, por exemplo, o rapaz que mesmo na velhice não consegue esquecer as lições do avô, e da própria autora relembrando o passado ao dizer estar madura para dizer a frase fatal, Heffman, não me abandone! (p. 53). “Se és capaz” é o mais profundo desta coletânea de seis contos e único a não possuir uma “Lygia” personagem e no conjunto dos seis pode ser considerado como a síntese da evolução pelas quais passa a alma humana ao longo da vida, e dentre todos os contos aqui descritos é o mais ligado à realidade, ao material, possuindo inclusive críticas ao ser humano e à sociedade.



      Resenha por: jcap.rj, graduando do curso de Comunicação Social, Publicidade e Propaganda, em: Rio de Janeiro, 30 de maio de 2011, entregue em 29 de junho de 2011.



Bibliografia:
- Telles, Lygia Fagundes. Invenção e Memória. 2ª ed. Rio de Janeiro: Rocco, 2000.

- Ferreira, Aurélio Buarque de Hollanda. Míni Aurélio: o dicionário da língua portuguesa. 8ª ed. Curitiba: Positivo, 2010.

Crise do Petróleo de 73 e Política de contenção dos EUA


A Crise de 1973: um “último gás” para a economia da URSS
             
             A Guerra Fria e a politica de contenção foram responsáveis pela crise do petróleo de 1973. O apoio norte americano a Israel contra a coalisão árabe liderada por Egito e Síria (que por sua vez tinham apoio da URSS), gerou a retaliação da OPAEP (organização contendo somente os produtores árabes, que por sua vez eram a maioria, dentre os membros da OPEP). A crise do petróleo é, portanto, um reflexo direto de um dos episódios das guerras árabe-israelenses. Episódio este que, devido ao contexto político e estratégico (e, por que não, ideológico) da Guerra Fria não poderia deixar de ter a participação dos rivais da época, sendo que os lados já estavam definidos, pelo menos, desde o golpe de 1952 no Egito.
            A OPEP já vinha diminuindo a oferta de petróleo gradualmente desde a sua criação, para alcançar os objetivos que tinha traçado desde a comprovação de que o petróleo era uma fonte não renovável além de aumentar o valor dos royalties pagos pelas transnacionais que exploravam esse recurso também passou à sua utilização como elemento estratégico e de barganha na economia internacional. Essa atitude reflete-se na desproporção entre os volumes das reservas totais desses países e a quantidade exportada por eles. Este processo de maior controle, nos anos seguintes ao conflito do Yom Kippur, terminaria por fomentar algumas nacionalizações de empresas deste setor, dentro dos países membros da OPEP.
            É notório que a coalisão árabe atacou primeiro no evento da “Guerra do Yom Kippur” (evento mais imediatamente responsável pela crise do petróleo de 73). O suporte soviético através da venda de armas ao Egito e aos países árabes se deu como única opção para estes, pois embora tentassem se tornar independentes, participando inclusive da Conferência de Bandung (Egito e Síria), não possuíam os recursos bélicos para iniciar ou manter uma guerra. Este apoio da URSS acabou gerando, em contraste, o apoio norte americano a Israel, pois os EUA não poderiam permitir uma maior influência soviética sobre a área devido aos recursos energéticos estratégicos que ali se localizam, o que acabou por desencadear a retaliação da OPEP, nos meses seguintes ao fim do conflito.
            Embora a “guerra” tenha durado somente vinte dias o petróleo teve um aumento de aproximadamente 400% nos cinco meses depois do conflito. Esta retaliação árabe contava com apoio das opiniões públicas dos países membros da OPAEP por entenderem que o petróleo que exportavam acabava por permitir o apoio americano e a resistência israelense. A retaliação dos países árabes exportadores de petróleo em resposta ao apoio americano a Israel se deu na forma de embargo: redução da, já decrescente, oferta e aumento dos preços, um duro golpe nos principais países consumidores: EUA, Japão e países da Europa Ocidental. Este embargo afetou também a URSS, mas de um modo diferente: como um dos maiores exportadores mundiais desta “commodity” a união soviética pôde lucrar muito com a crise.
            Resumindo: o apoio da União Soviética aos países árabes, que eram maioria na OPEP, pôde fazer com que os EUA entrassem no conflito apoiando Israel. Isto fez com que a OPEP acabasse por “trabalhar” a favor da URSS, aumentando os preços além do normal e diminuindo a produção fazendo com que a economia soviética obtivesse enormes lucros com as exportações de seu próprio petróleo e, com essa crise, aumentasse seus dividendos externos, fazendo com que o regime socialista alcançasse uma sobrevida naqueles anos de 1970.
            Pode-se considerar também essa maior inserção soviética no mercado internacional como um prenúncio da abertura econômica que se seguiria nas décadas seguintes. Outro ponto é o de que diminuição na oferta causou o incentivo a várias buscas por outros locais onde a extração do petróleo fosse possível. Causou também um maior desenvolvimento tecnológico na busca por fontes renováveis. É difícil conceber que estes resultados (conflito e crise) não tenham sido minimamente previstos na época ou até mesmo considerados como inevitáveis pelas duas superpotências devido às tensões existentes na área.

            Trabalho por: jcap.rj, graduando do curso de Publicidade e Propaganda do Centro Universitário da Cidade - UNIVERCIDADE. Unidade Ipanema, 1º período, turno: noite

Referências:

http://educaterra.terra.com.br/voltaire/seculo/2003/12/02/000.htm “EUA: política de contenção e Guerra Fria” – Voltaire Schilling
http://veja.abril.com.br/idade/exclusivo/crise_palestina/arquivo/reportagem_101073.html “Dia de guerra durante o dia de perdão” – Arquivo Veja
http://veja.abril.com.br/idade/exclusivo/crise_palestina/arquivo/reportagem_171073.html “Oito dias sem vitória na guerra santa - Na frente síria e no Sinai, nada ainda está decidido” – Arquivo Veja
http://veja.abril.com.br/arquivo_veja/capa_31101973.shtml “Depois do alerta, a paz frágil” – Arquivo Veja
http://veja.abril.com.br/idade/exclusivo/crise_palestina/arquivo/reportagem_141173.html “A dura paz do petróleo - Sob a pressão do embargo árabe, a busca de um entendimento difícil” – Arquivo Veja
http://guerras.brasilescola.com/seculo-xx/guerra-suez.htm  “Guerra de Suez” – Por: Rainer Sousa, Graduado em História, Equipe Brasil Escola
http://www.infoescola.com/geografia/opep-organizacao-dos-paises-exportadores-de-petroleo/ “Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo)” – Por: Caroline Faria
http://www.infoescola.com/economia/crise-do-petroleo/ “Crise do Petróleo” – Por: Antonio Gasparetto Junior
http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u559190.shtml - "Não há vitória do keynesianismo nem abandono da ideologia liberal", diz Fiori – Por: Claudia Antunes
http://www1.folha.uol.com.br/folha/dinheiro/ult91u544135.shtml - “Veja as crises financeiras e soluções desde a Grande Depressão” da Efe(agência de notícias), em Washington
http://www1.folha.uol.com.br/folha/dinheiro/ult91u621576.shtml - “Opep reclama do aumento nas exportações do petróleo russo” - da Efe, em Viena”
http://www1.folha.uol.com.br/folha/bbc/ult272u49587.shtml - “Disputa com Ucrânia mostra desejo russo de manter influência” – Paul Reynolds da BBC Brasil



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Nota: Este trabalho foi realizado mediante interpretação dos fatos ocorridos durante o período da Guerra Fria, utilizando-se os conhecimentos sobre a política internacional da época, adquiridos durante as aulas de Temas Contemporâneos, durante o primeiro semestre de 2011.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Status, Papéis e Lugar na Sociedade (Sociologia)

As estruturas sofrem mutações através dos tempos, mas permanecem existindo. Como a inter-relação entre aluno e professor, especialmente no âmbito organizacional do Estado moderno. Por exemplo: a maneira como um aluno nativo de uma cultura x interpreta sua cultura é diferente da maneira como um aluno de outra cultura (y) vai interpretar a cultura x.

Do mesmo modo que um professor interpreta de maneira diferenciada essa mesma cultura x, dependendo do nível de instrução que esse professor adquiriu, do local onde esse professor adquiriu o conhecimento sobre essa cultura, passando inclusive pelo que esse professor deve ensinar aos alunos: ou seja, um professor universitário não vai abordar as especificidades da cultura x para alunos de 5ª a 8ª serie, pois a própria sociedade e o Estado convencionaram que esse aluno deve ter um conhecimento mais generalizado, menos específico.

Os papéis desempenhados pelos indivíduos dentro das instituições (formadoras da sociedade) exigem um determinado grau de conhecimento (por exemplo: o nível de conhecimento de um professor tem que ser, obrigatoriamente, maior que o do aluno, mesmo que somente em determinada instância, pois se o nível do aluno for maior ou igual ao do professor a relação professor-aluno se desfaz passando a existir outra que passa a ter denominação própria) e postura (comportamento) que difere de um individuo para o outro, dependendo do status desse individuo, sendo, a postura, inerente ao próprio status. Basicamente: os requisitos mínimos exigidos pelas instituições formadoras da sociedade para que um indivíduo exerça o “papel” de professor universitário diferem dos requisitos mínimos que são exigidos para ocupar, esse mesmo indivíduo, o papel de professor do ensino fundamental.        

Por exemplo, um professor interpretaria determinado símbolo da forma que seus recursos permitem; as exigências que foram feitas ao nível de conhecimento desse professor para que ele alcançasse o status de professor dentro de determinada instituição transformam a maneira como ele vê determinado símbolo, dentro do seu próprio raciocínio através do tempo; esse professor vai interpretar determinado símbolo de maneira diferente de quando ocupava o status de aluno; assim como interpretará determinado símbolo de formas diferentes dependendo do status que ocupe em determinado momento do seu dia. Um "símbolo com forte apelo sexual", por exemplo, ele como professor terá a obrigação e não sentirá nenhum pudor em “desnudar” ou expor esse mesmo símbolo perante seus alunos, observando todas as especificidades que forem apropriadas para determinado status de aluno (fundamental, médio ou universitário), mas ao assumir o status de pai, por exemplo, ele pode decidir se deve ou não expor seu filho ao mesmo símbolo.

Um agricultor, que tenha obtido somente o conjunto de exigências básicas inerentes ao papel que desempenhará dentro desse status, pode e vai interpretar o mesmo símbolo de maneira diferente da que o professor, anteriormente citado, o faria. O conjunto de conhecimentos exigidos desse agricultor para que ele exerça esse status na sociedade é diferente do conjunto do professor. Ele vai interpretar o símbolo (explorado anteriormente nesse mesmo texto) da maneira que lhe permitem seus conhecimentos, muito provavelmente ligado mais à praticidade de determinado símbolo, dentro da especificidade da cultura onde ambos se encontram inseridos (ou seja, levando em conta os valores que sua própria cultura atribui ao símbolo em questão). Status diferentes, papéis diferentes, culturas diferentes, interpretações diferentes.

Por exemplo, “uma santa sangrando pelos olhos aparece em um noticiário”: um agricultor procuraria, como explicação, dar mais atenção ao caráter místico do fato prestando menos atenção a um possível caráter científico, devido ao seu próprio conjunto de conhecimentos ser mais limitado pelo próprio status ocupado por ele, sendo um conjunto muito mais ligado à prática. Já um professor ou outro indivíduo que tivesse um status que exigisse um conhecimento mais científico buscaria ou daria mais atenção ao lado científico da reportagem. Tendo que, obviamente, se levar em consideração o local e sua cultura própria, por exemplo, as exigências do papel de “homem do campo” no Brasil, diferem, mesmo que somente em alguns poucos aspectos, das exigências que são feitas ao agricultor de outros lugares.

Como conclusão eu penso que os status desempenhados a nível profissional e pessoal na sociedade influenciam-se mutuamente dentro de um mesmo individuo, ou seja, o individuo não consegue separar completamente um papel do outro. Um professor que desempenha no momento o papel de pai não vai simplesmente deixar o papel de professor de lado, tendo esse papel de pai absorvido algumas características do papel de professor e vice-versa, E ambos sendo influenciados por uma cultura comum com a qual cada um se identifique.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Hegemonias (resumo incompleto)

Inicialmente as lógicas capitalista e territorialista de acumulação de poder eram concorrentes sendo a segunda predominante no sistema europeu. Com o sucesso do capitalismo das cidades-estados italianas o capitalismo foi gradualmente sendo integrado ao territorialismo.

O uso da força em simultaneidade ao exercício da liderança moral é essencial ao estabelecimento de uma hegemonia. O uso somente de força gera dominação. A condução do sistema de estados numa direção desejada é característica da hegemonia, pois ao somente atrair outros estados para a sua via de desenvolvimento (no caso, Holanda), o estado mais forte acaba fortalecendo os outros criando assim condições favoráveis ao aparecimento de um outro estado que esteja mais disposto a tomar a hegemonia. O caos do sistema organizacional demanda ordem e o estado que puder suprir essa demanda pode se tornar hegemônico.


As cidades-estados italianas exerciam seu capitalismo tentando harmonizar com o sistema medieval vigente. A falta de um controle maior sobre os circuitos de comércio fez com que as oligarquias italianas perdessem sua hegemonia econômica para outros países que descobriram rotas alternativas de comércio. A falta de “tato” quanto a identificar questões sociais e a concentração somente na acumulação de capital também contribuíram para essa perda.

Tamanho era o caos (guerras e revoltas contra o Estado) à época do aparecimento da hegemonia holandesa que fez com que o capitalismo se tornasse o sistema mundial em detrimento do sistema de governo medieval. Foi acordado um limite para as hostilidades de modo a proteger o comércio. As Províncias Unidas apoiaram a destruição dos últimos focos de resistência desse sistema, tendo sempre buscado formas de não deixar que os conflitos chegassem a proporções incontroláveis, de modo a não permitir que seu comércio ou finanças fossem abalados, assim conquistando o consentimento moral dos outros estados: proteger o comércio era o interesse comum.

Um controle maior das redes financeiras fez com que a Holanda lucrasse com a competição comercial entre estados. Tão logo se firmou como estado mais forte, a Holanda teve de enfrentar Inglaterra e França, que tentaram incorporar suas redes (comércio e finanças) aos seus domínios. Logo depois a estratégia usada contra as cidades-estados italianas foi utilizada também contra a Holanda: não conseguindo controlá-la diretamente, tentou-se o controle de suas fontes.

A Inglaterra deu um grande passo em direção ao predomínio mundial ao transformar sua desvantagem insular na luta pela hegemonia europeia em vantagem na competição pela hegemonia e economia ainda maior nos custos de proteção. Tendo também ajudado o fato de ter sido organizadora da aliança para o restabelecimento das condições do tratado de Vestfália criado à época da última hegemonia. O que difere uma da outra é que a Grã-Bretanha tomou a liderança dessa aliança, restabeleceu os direitos e depois o modificou a ponto de transformá-lo em outro sistema com menor força dos monarcas (maior “democracia”). A Inglaterra então “ressuscitou” o territorialismo e uniu-o ao capitalismo expandindo-os, ao mesmo tempo, além dos limites anteriores.

O estabelecimento do padrão ouro foi uma tentativa de controle dos meios de pagamentos e concentração destes na Inglaterra. A crise sistêmica da hegemonia inglesa se deu pela competição do imperialismo tardio alemão e gerou os conflitos armados da primeira guerra mundial, e com o encerramento desta surgiu no palco o próximo país a colocar ordem no sistema mundial: os EUA. Essa crise tinha como base a exclusão dos colonos não europeus e das classes europeias não proprietárias, exclusão essa que gerou diversas revoltas sociais.


Com o tamanho cada vez maior dos conflitos e sua dependência direta das indústrias, o proletariado ganhava cada vez mais poder de barganha e de pressão sobre o estado, e assim as revoltas sociais se intensificavam. Esses conflitos pioraram depois da 1ª guerra e culminaram na segunda. Dentre as principais causas da 1ª guerra está a incapacidade da Alemanha em converter sua estrutura militar-industrial em domínio comercial e financeiro.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Cultura Egípcia (ação social e coerção social) Sociologia


Cultura egípcia vista pelos ângulos da ação social, coerção social,
e da própria acepção do que seja cultura.

A cultura egípcia antiga presta forte homenagem ao Nilo, pois às suas margens, desde os primórdios da civilização, foi onde o povo se estabeleceu devido à fertilidade que sobrevinha às cheias. Os egípcios, principalmente os de origem mais humilde, ainda são fortemente influenciados pela cultura antiga, como nas artes, em algumas tradições, e algumas crendices populares. Embora alguns elementos da cultura dos egípcios antigos tenham se difundido e influenciado outras culturas, a grande maioria da população de outros países (que sofreram influência egípcia) usam esses elementos sem saber de sua origem.

Qual a diferença entre um nativo egípcio que se veste como norte-americano, consome produtos de origem estadunidense, fala inglês e tem como preferências musicais os ritmos mais consumidos nos EUA; e uma pessoa que nasceu em outro país, mora em outro país, mas se veste como egípcia, fala o idioma árabe, prefere a música e comida típica e tradicional do Egito, talvez sendo até mesmo muçulmana?

O mundo e as sociedades são, a meu ver, desse modo: ninguém está livre de influenciar ou ser influenciado. Por exemplo, as camadas populares do antigo Egito que eram politeístas agora se tornaram a maioria islâmica do país. Os EUA, em sua necessidade de manter a hegemonia mundial, através de consentimento moral pelas outras culturas exportam maciçamente sua cultura e seus valores para diversos outros países com o intuito de aceitação. Portanto a “coerção social” norte-americana está presente no mundo todo e será uma presença constante visto que a expansão cultural é fator primordial para manter-se como líder mundial. O termo utilizado é “coerção social” porque os EUA são comparáveis às elites, pois detêm maior poder militar e econômico e de exportação de cultura que qualquer outro país do mundo. Como exemplo desse ponto de vista tem-se a ajuda financeira norte-americana ao Japão do pós-guerra que junto trouxe uma completa reformulação de valores e costumes japoneses incluindo-se a perda de poder político da família real, e o aumento dos direitos da mulher.

A “ação social” entra como “trabalho de formiguinha” sendo o de fornecer um exemplo de que a cultura de determinado país é valiosa e bonita devendo ser, por isso, preservada. A pessoa pode se vestir e cultivar hábitos de determinada cultura para chamar atenção sobre si e consequentemente sobre a cultura do país. Sempre com o objetivo de difundir, fazer com que as pessoas abram os olhos e se interessem por conhecer ou mesmo com o objetivo maior de não deixar que determinadas tradições sejam perdidas ou substituídas.    

A tradição egípcia é forte, com raízes (bases) profundas, mas que pouco a pouco vai se mesclando à cultura ocidental norte-americana exportada em massa. E não é somente a cultura do Egito que vai sendo “transformada” pela norte-americana; as culturas de muitos outros países sofrem essa, e com essa, influência. O índio no Brasil, por exemplo, salvo alguns poucos, não conhece o mínimo sobre a cultura de seus ancestrais. Mesmo com o trabalho das “formiguinhas” há resistência dentro da própria comunidade indígena às vezes sob o argumento da inutilidade do conhecimento, dos costumes, ou mesmo do idioma na vida prática do dia-a-dia.

A diversidade cultural é a grande riqueza da raça humana, enquanto os que dominam o mundo não se aperceberem disso estamos fadados a empobrecer culturalmente, sobrando para as gerações futuras somente míseros resquícios dessa variedade cultural, expostos em museus. No mundo há espaço suficiente para a convivência intercultural. Para a preservação da diversidade cultural contribuem também os avanços nos estudos humanos pelas ciências sociais que revelam a importância das tradições, e da preservação da própria cultura, mesmo que essa importância seja levada em consideração somente pelos Estados para a formação de uma “identidade nacional”.

Sobre o Egito:

“ Heródoto, o antigo historiador e viajante grego, descreveu uma vez o Egito como sendo “a dádiva do Nilo”, e mesmo antes do nascimento de cristo que viajantes foram atraídos por imagens de pirâmides, da esfinge, da antiga Luxor e do rio Nilo. Os faraós, os Gregos, os Árabes, os Romanos, Turcos e Ingleses, todos eles governaram o Egito, e o moderno é então uma mistura destes legados, das influências do Islã e do séc. XX. Aldeias de tijolos de argila estão ao lado de ruínas faraónicas, rodeados de edifícios de aço, pedra e vidro. Beduínos vivem em tendas de pele de cabra e agricultores lavram a terra com as ferramentas simples dos seus antepassados. Os nativos vestem-se com longos e flutuantes mantos, outros com Levis e Reebocks, e o tráfego na cidade compete com carroças puxadas por burros e cabras. Em lado nenhum são estes contrastes representados de forma tão colorida como no Cairo, uma cidade maciça apinhada de gente e a soar a buzinas de carros e a sirenes vindas dos bairros num chamamento dos fieis para a oração. No entanto, o Egito não é só caos e algazarra, e também um mergulho de sonho de um mergulhador, uma tranquila caravana de camelos pelo deserto ou uma preguiçosa barca a descer o Nilo.

País: Republica Árabe do Egito
Área: 1.001.449 km2
População: 67 milhões
Capital: Cairo
Povo: Berberes, Beduínos Núbios
Língua: Árabe
Religião: 90% Islâmicos, 7% Cristãos
Governo: República
Moeda: Libra Egípcia
Principais indústrias: Petróleo, metais, turismo e agricultura (especialmente algodão)
Principais parceiros econômicos: Estados Unidos, C. E., Japão ”


“  Para a maioria dos Egípcios, a vida e o estilo de vida não mudaram muito durante centenas de anos. O Séc. XX deixou com certeza as suas marcas na forma de refrigerantes, Levis, e televisão. No entanto, para a maioria da população Fellahin (camponeses), as casas continuam a ser as mesmas de sempre. Há uma atitude entre a maioria dos egípcios de que o será, será.
     Permanece uma visão quase fatalista, produto de milhares de anos de peste, fome, invasões e inundações. Para grande parte deles, a vida é ditada pelas mesmas circunstancias que existiam para as gerações anteriores.
     Desde que os primeiros adobes foram colocados na Pirâmide de Unas em Saqarra no séc. XIV a.C., que a pintura faz parte da vida egípcia. Mas foram os Faraós que foram especialmente generosos em adornar os interiores das suas tumbas, com imagens do além e da ressurreição. A pintura contemporânea egípcia foi fortemente influenciada pela cultura ocidental e foi só a partir da Segunda metade do séc. XX que pintores egípcios começaram a romper com estas influências. Entres os artistas contemporâneos mais conhecidos encontram-se Gazba Serri, Inji Eflatoun, Abdel Wahab Morsi e Wahib Nasser.
     A musica popular no Egito, significava até á pouco tempo, a voz única de Om Kolthum, “ a mãe do Egito “. Morreu em 1975 mas a sua música e a sua lenda sobreviveram. Baseadas em operetas e poesia as suas canções são as mais conhecidas para os ouvintes ocidentais.
     Outros notáveis foram Abdel Halim al-Hafez e Mohammed Abd el-Wahaab.
     Elementos da musica pop ocidental, estão gradualmente a ser integrados na música egípcia contemporânea e como expoentes de um novo estilo estão Iheb Tawfik, Mohammed Fouad e Hakim.
     Apesar do Egito ser famoso pela “dança do ventre”, o movimento ondulante do corpo é encarado geralmente como vulgar e promíscuo. Grande parte das bailarinas da dança do ventre que se encontram nas estâncias turísticas são na realidade europeias ou norte americanas, pois para uma mulher Árabe, é considerado impróprio um comportamento tão provocante.
     As bailarinas Árabes, tal como Fifi Abdou, têm que ter guarda costas para as protegerem dos islâmicos mais radicais. No entanto, nas grandes reuniões de família - casamentos ou festas privadas - dançar é por vezes parte dos divertimentos.
     Em 1988, Naguib Mahfouz recebeu o prémio Nobel da literatura pelo livre ”A Trilogia do Cairo”. Mahfouz tem mais de quarenta livros e guiões editados com o seu nome. O seu livro de 1956 “Crianças do Beco” , continua a ser banida no Egipto, e muitos encaram-na como uma blasfémia ( em 1995 foi realizado um atentado ao autor de 83 anos e pensa-se que o livro tenha sido a principal causa). Outros grandes autores são Tawfiq al- Hakim, Yahya Haqqi e Yusuf Idris . A seguir a Mohfouz, será provavelmente Nawal el- Saadawi a autora mais conhecida do Egito sendo no entanto mais respeitada no estrangeiro. 

Fonte: Salt Lake Tours              http://www.saltlake.com.br/INFO%20GERAL/Egito_cultura.htm

domingo, 17 de abril de 2011

Texto para Português I - "UniverCidade"


Lembranças de areia



          Garganta arranhando; respiração lenta; boca seca. A cada passo dado os músculos se revoltam em uma dor excruciante, mas ele se obriga a prosseguir. As ilusões já começam a se fazer presentes. Ele começa a ouvir o som de madeira estalando no fogo e por um momento olha ao redor desesperado em busca da fonte do incêndio, embora só o que veja sejam as ondas de calor que emanam da areia escaldante. Sem perceber olha para o alto e o som cessa. Lá está ela, a bola de fogo implacável no céu, insensível a qualquer criatura daquela paisagem infernal.
          Sua caminhada já dura dias, embora ele não possua lembranças mais antigas do que algumas poucas horas. O desejo de sair dali é maior que sua curiosidade sobre o porquê de não se lembrar de fatos anteriores à sua chegada ao deserto. Só o que faz é caminhar em busca de um indício de civilização. Não tem lembrança da última vez que bebeu água, mas não pensa nisso. A fome e a sede o torturam mais do que as dores no corpo.
          O último vestígio de vida foi uma cobra da cor da própria areia que ele viu, ou pensou ter visto, rastejando perto de si. O pavor de cobras logo foi substituído pelo instinto de sobrevivência. Como almoço a serpente não era um prato muito atraente, tendo pequenos chifres saindo da cabeça e parecendo ser somente constituída de pele, osso e veneno. Começou a se perguntar se teria algum sabor ou se teria gosto da própria areia. Não importava, só o que ele sabia era que aquele animal lhe forneceria mais algumas horas de preciosa energia. Mas como ele faria para capturá-la, afinal era venenosa. Cansado como estava a ideia de morrer lutando pela própria vida não pareceu-lhe tão ruim...
    
          No fim ele não precisou se preocupar muito com o método, pois ao se aproximar um pouco mais da serpente, em preparação para a captura, após limpar os olhos ela havia simplesmente desaparecido. Por mais perigo que ela pudesse representar, ou fome que estivesse sentindo não se esforçou muito para tentar encontrá-la novamente...

          Seu passatempo favorito era cogitar como havia chegado ali. As explicações seguiam-se em sua cabeça como se para distraí-lo da realidade. Talvez um acidente de avião, mas não estava ferido... Quem sabe tenha sido abandonado pelos companheiros? Mas que companheiros? Ora, os da excursão! Ou teria sido uma caravana...? Aviões, caravanas; tentar lembrar é um passatempo que, nessas circunstâncias, é tão mórbido quanto pensar em água.
          De repente ele é forçado de volta à realidade, imobilizando-se como uma estátua. Sentindo uma presença às suas costas e como se a serpente houvesse voltado ele se lança a frente, sob protestos de todos os seus nervos, e ainda no chão, se vira para encarar o possível agressor. E lá está ela como se o simples pensamento a tivesse materializado ali. Mas havia algo de errado, a serpente que vinha em sua direção parecia aumentar de tamanho à medida que se aproximava. Ele espantado nada podia fazer e quando, por fim, o ofídio estava próximo o suficiente para que pudesse dar o bote, já estava do tamanho de um carro. Por mais que seus sentidos dissessem que aquilo não era real ele, apavorado, não se movia.

          Estavam ambos imóveis à espera de um movimento, por mínimo que fosse. E foi a cobra quem tomou a iniciativa ao arreganhar as mandíbulas e exibir presas da espessura de troncos de árvores. Em segundos estaria terminado e ambos sabiam disso. Quando a cobra deu o bote fatal tudo escureceu e de um salto ele rolou para a direita e quase caiu no chão, tendo que se segurar do outro lado da cama para não cair. Tudo não passara de um pesadelo; suado, ofegante e com o corpo tomado por câimbras ele tenta se acostumar à escuridão de seu quarto e rapidamente as imagens e sensações antes tão vívidas se apagam de sua mente. Após se acalmar e secar nas cobertas ele tenta sem sucesso se lembrar do sonho que pudesse tê-lo deixado naquele estado. Por fim volta a dormir, embora no dia seguinte ele venha a se perguntar sobre a areia em sua roupa de cama e sobre seus sapatos.