Às vezes antes de conseguir dormir, deitado na cama e na minha solidão eu me imagino deitado em outro lugar, num outro tempo, ao lado de uma pessoa. Ao lado de uma mulher. Estamos muito próximos e de frente um para o outro e eu acaricio seu rosto e embora eu sinta a claridade no lugar em que estamos, não consigo distinguir seus traços, não percebo seu cabelo e ela não parece ter um cheiro, mas isso não me parece estranho. Na verdade parece mais normal e real que a vida e minha única preocupação é acariciar aquele rosto. Um rosto sem feições. Um rosto sem rosto. É difícil explicar... É como se o rosto estivesse lá, mas eu não me importasse em vê-lo ou não quisesse. Ela tem um rosto. É como se nesse momento toda a pessoa que ela deveria ser se resumisse a um rosto que eu não consigo distinguir, mas me agrada e me conforta acariciar.
O máximo do mundo que sinto é a claridade e o lugar em que estamos deitados. Uma claridade que sequer consigo distinguir a fonte ou a intensidade e o lugar em que estamos deitados que não me passa sensação alguma, ou passa se pode-se considerar como sensação a percepção de estar na horizontal. É como se tudo lá se resumisse a uma sensação. Um corpo, um toque que passa uma sensação. E essa sensação abafa e se sobrepõe a todas as outras. Ela não me acaricia de volta, mas eu não me importo e continuo acariciando sua pele e é como se acariciasse a minha própria.
Enquanto estou lá não sinto paixão, não sinto amor, o que mais sinto é carinho. Não o carinho do meu toque na sua face mas sim o oposto. Sinto a retribuição do carinho na sua aceitação. Sinto também uma alegria contida e muita esperança e é assim que sei que sou eu ali, é assim que sei que lá naquele lugar está a minha essência. Me enche de calma afagar seu rosto e ela simplesmente aceitar. Me aceitar. Com todos os meus problemas e meus defeitos; me aceitar. É como se eu encontrasse nesse carinho a minha verdadeira razão de ser, de existir. Encontrasse naquele momento de sonho tudo que sonhei por tanto tempo encontrar na vida real.
Depois do breve momento, quando abro os olhos fico ainda imaginando, curiosos, desejoso, como seria aquele rosto, e até me permito tentar adivinhar a cor dos olhos ou o corte de cabelo. Eu sei que com essa atitude sempre acabo por imaginar ela com um rosto vagamente conhecido, que me é familiar porque é formado por um conjunto das minhas memórias. Mesmo com esse exercício de adivinhação ela sempre volta aos meus pensamentos como uma pessoa sem rosto. Talvez porque no fundo eu saiba que suas feições, quaisquer que sejam elas, não estão nas memórias de alguém que conheci, mas sim no futuro numa combinação ainda desconhecida. Sei que não é real e talvez por isso não consiga ver um rosto onde deveria haver um enquanto me imagino com ela. E é talvez por saber que é uma ilusão que eu sinto tanto lá. Me sinto tanto lá. E tão profundamente.