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terça-feira, 5 de julho de 2011

Resenha: Invenção e Memória

Fonte: Telles, Lygia Fagundes. Invenção e Memória, Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2000.


              Um desmembramento do espírito humano

        Esta resenha tem por objetivo uma crítica dos contos: “Que se chama solidão”, “Suicídio na granja”, “Se és capaz”, “Cinema Gato Preto”, “HEFFMAN” e “O Cristo da Bahia”, que se encontram no livro “Invenção e Memória”, ganhador do prêmio “Jabuti” de 2001 como Livro do Ano de Ficção, e também premiado pela APCA, de autoria de Lygia Fagundes Telles. Objetiva uma crítica mais voltada para a temática dos referidos contos e algumas das singularidades que possuem em comum. O livro contém quinze contos, mas esta resenha objetiva somente a análise dos sete primeiros excluindo-se o conto “A dança com o anjo”. A obra apresenta textos que contam lembranças da infância e adolescência da autora, onde ela apresenta a própria visão de fatos que ocorreram nesse período, confundindo-se aí as lembranças reais com as invenções próprias da imaginação da autora, fato esse que justifica o título do livro. Lygia Fagundes Telles é atual ocupante da cadeira 16 da Academia Brasileira de Letras, nascida em São Paulo em 1923, passou a infância no interior do estado, mas voltou à capital onde terminou seus estudos.
        O Conto “Que se chama solidão” dá início à narrativa das memórias, onde a parte marcante é a convivência da autora com sua família, mãe e tia, dando-se destaque às pajens. A primeira foge com o namorado. A segunda, Leocádia, ensina a canção de onde é tirado o título do conto. Esta, grávida, tenta abortar, mas acaba ferindo-se mortalmente: “... Enfiou a agulha de tricô lá no fundo, meu Deus!...” (p. 13). Neste conto, à autora, é apresentado o fato da morte, e advindo deste fato a recorrente solidão que já havia experimentado com a fuga da outra pajem. Neste conto a morte de Leocádia pode ser considerada como suicídio, mesmo que acidental em uma tentativa de abortar, tornando este conto uma abertura para a discussão do seguinte acerca do suicídio.
        O segundo conto, “Suicídio na granja”, apresenta também uma jovem e questionadora Lygia que ao saber de um suicídio faz indagações a seu pai, queria saber se qualquer ser poderia se matar: E bicho, bicho também se mata? (p. 19). Esses questionamentos seriam lembrados futuramente quando ela passava férias em uma fazenda e conheceu dois bichos que mantinham uma estranhíssima amizade (p. 19). Este conto se desenvolve sobre as peculiaridades dessa amizade entre um galo e um ganso. Em determinado momento o ganso é morto para servir de prato em um jantar na fazenda. A partir de então a autora relaciona o suicídio, o qual perguntara a seu pai no passado, com o fato de o galo estar definhando pouco a pouco. Neste conto a autora tenta levar o leitor a perceber um pouco mais do que a aparência de animal, fazer com que ele possa responder à pergunta que ela própria havia se feito: Só gente? (p. 19). A discussão sobre o bem e o mal está representada neste conto na hora em que o cozinheiro ficou com medo de atrasar o jantar e escolheu o que quis e na escolha, acabou levando o coitado (p.21) do ganso. Ficando a cargo do leitor a reflexão sobre a  atitude do cozinheiro. A temática do bem e do mal será retomada posteriormente e com mais ênfase em “Cinema Gato Preto” e também no último conto desta crítica.
        No conto “Se és capaz...” a autora acompanha um rapaz desde a adolescência, passando pela idade madura e chegando à velhice, concentrando-se a narrativa nas duas últimas. Este é o único conto desta “coletânea” que não tem uma “Lygia” personagem. Como ponto central do conto há a relação do rapaz com o pergaminho recebido do avô. Por toda a vida ele é atormentado pelos princípios descritos no poema do pergaminho. Princípios estes que não consegue seguir completamente, e tenta sempre achar uma desculpa para que não consiga segui-los e, assim, uma desculpa para o próprio avô a quem descreve como: uma lembrança amável (p. 36) em meio a uma infância tão injusta, com tantos desentendimentos na família (p. 36). Na velhice é onde o poema o perturba mais chegando a achar culpa na própria degradação do país e da sociedade (“... esse próximo cada vez mais irascível, mais exaltado...” p. 34), sem levar em conta que foi durante a sua idade madura que ele ignorou mais as lições do poema (“... embora já tivesse traído à beça aquela dona...” p. 34).
        Em “Cinema Gato Preto” a jovem autora está com seu irmão e uma amiga em um cinema. Vendo um filme de terror ela começa a se indagar sobre as sutilezas do bem e do mal se utilizando, inclusive de outras lembranças (“... E o tio Garibaldi? Onde ficava o tio? Apareceu uma noite para perguntar ao pai se o Diabo costumava ler jornal...” p. 43). Utiliza-se de comparações entre fatos reais e de filmes para tentar explicar a complexa relação entre esses dois conceitos. Esse conto também apresenta a visão, já muito crítica, da autora: “Eram cerimoniosos os homens-morcegos da cena muda, poucos gestos, pouca fala” (p. 44). A discussão sobre o bem e o mal retorna em posteriormente em “O Cristo da Bahia”.
        Em “HEFFMAN” a narrativa se encontra deslocada para a adolescência da autora. Conta-nos o fascínio que sentia pelo ambiente da livraria Jaraguá, embora fosse uma admiração disfarçada, sempre afetando uma certa indiferença  (p. 48). É também nessa livraria que tem contato mais direto pela primeira vez, (“... Nunca pensara antes em teatro mas era tão jovem e tudo para mim era novidade com um certo grão de ousadia, de loucura...” p. 48), com a interpretação teatral na peça que empresta título ao conto, a qual tinha sido escrita pelo dono da livraria. Este conto fala das novas experiências da autora ao mesmo tempo que fala de sua inexperiência em outros áreas, das escolhas que tem de fazer e da pesagem dos prós e dos contras (“... Minha família (só pensava em minha mãe) e os meus amigos iam estranhar. Ou não?...” p. 49), (“... Prejuízo político?  Social?...” p. 49). Há forte presença de lembranças e no último parágrafo é utilizado o globo terrestre como metáfora para a vida e essas mesmas lembranças (“... Dando-lhe um leve impulso eu poderia fazê-lo girar no seu eixo mas agora queria vê-lo assim parado...” p. 54) e também um sentido de calor e vontade de permanecer mergulhada nas lembranças (“... Abri as mãos para aquecê-las no vidro...” p. 54), único lugar onde pode reencontrar alguns dos amigos da época (“... era aquela noite longínqua: a livraria estava aberta e todos ainda estavam vivos...” p. 53).
        “Cristo da Bahia” encerra este recorte crítico do livro. Este conto fala de religiosidade e, ainda, do bem e do mal. Em uma comparação das palavras do padre, que não admitia pensar em roubo (“... Ele falou em estragos e não em roubos, pensei...” p. 56), com a interpretação da autora dada à história de “Oscar Wilde, O príncipe feliz (p. 57), onde ela vê a andorinha que “retira” as joias da estátua para distribuir aos necessitados da cidade, como uma obediente emissária da vontade de Deus, vendo na atitude do padre um entendimento de que: quem quer que tenha retirado as joias, o tenha feito por extrema necessidade, e não por mal.
        A conclusão que se chega ao se ler esses contos é que a autora busca incutir no leitor uma busca por reflexões quanto a um maior entendimento da alma, no conto inicial ela cogita, inclusive, a vida após a morte ao ver o fantasma de Leocádia. No segundo conto, além da discussão do suicídio há ainda a defesa dos animais, que são capazes, segundo a autora, de sentimentos tão sutis quanto os dos seres humanos, como a tristeza profunda, a dor de uma perda importante, uma dor na alma. No terceiro conto ela discute essas dores e o quão profundas e duradouras elas podem ser, indo desde a infância e, em não sendo cuidadas, podendo chegar até mesmo à velhice. Em “Cinema Gato Preto”, discute as sutilezas do bem e do mal, assunto abordado superficialmente em “Suicídio na granja” e aprofundado em “Cristo da Bahia”, como dito anteriormente, e como cada pessoa vê essas “nuances” de modo diferente. Em “Heffman” a autora aborda os caminhos pelos quais, em sua juventude teve de passar em uma exibição de saudosismo, e escolhas demonstrando ao leitor que a saudade e as experiências são formadoras da alma. No último conto desta crítica ela retoma a discussão do bem e do mal, e a visão de cada indivíduo dos dois. A importância das lembranças na formação do ser marca “Heffman” e “Se és capaz”, mais do que os outros como, por exemplo, o rapaz que mesmo na velhice não consegue esquecer as lições do avô, e da própria autora relembrando o passado ao dizer estar madura para dizer a frase fatal, Heffman, não me abandone! (p. 53). “Se és capaz” é o mais profundo desta coletânea de seis contos e único a não possuir uma “Lygia” personagem e no conjunto dos seis pode ser considerado como a síntese da evolução pelas quais passa a alma humana ao longo da vida, e dentre todos os contos aqui descritos é o mais ligado à realidade, ao material, possuindo inclusive críticas ao ser humano e à sociedade.



      Resenha por: jcap.rj, graduando do curso de Comunicação Social, Publicidade e Propaganda, em: Rio de Janeiro, 30 de maio de 2011, entregue em 29 de junho de 2011.



Bibliografia:
- Telles, Lygia Fagundes. Invenção e Memória. 2ª ed. Rio de Janeiro: Rocco, 2000.

- Ferreira, Aurélio Buarque de Hollanda. Míni Aurélio: o dicionário da língua portuguesa. 8ª ed. Curitiba: Positivo, 2010.

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