Lembranças de areia
Garganta arranhando; respiração lenta; boca seca. A cada passo dado os músculos se revoltam em uma dor excruciante, mas ele se obriga a prosseguir. As ilusões já começam a se fazer presentes. Ele começa a ouvir o som de madeira estalando no fogo e por um momento olha ao redor desesperado em busca da fonte do incêndio, embora só o que veja sejam as ondas de calor que emanam da areia escaldante. Sem perceber olha para o alto e o som cessa. Lá está ela, a bola de fogo implacável no céu, insensível a qualquer criatura daquela paisagem infernal.
Sua caminhada já dura dias, embora ele não possua lembranças mais antigas do que algumas poucas horas. O desejo de sair dali é maior que sua curiosidade sobre o porquê de não se lembrar de fatos anteriores à sua chegada ao deserto. Só o que faz é caminhar em busca de um indício de civilização. Não tem lembrança da última vez que bebeu água, mas não pensa nisso. A fome e a sede o torturam mais do que as dores no corpo.
O último vestígio de vida foi uma cobra da cor da própria areia que ele viu, ou pensou ter visto, rastejando perto de si. O pavor de cobras logo foi substituído pelo instinto de sobrevivência. Como almoço a serpente não era um prato muito atraente, tendo pequenos chifres saindo da cabeça e parecendo ser somente constituída de pele, osso e veneno. Começou a se perguntar se teria algum sabor ou se teria gosto da própria areia. Não importava, só o que ele sabia era que aquele animal lhe forneceria mais algumas horas de preciosa energia. Mas como ele faria para capturá-la, afinal era venenosa. Cansado como estava a ideia de morrer lutando pela própria vida não pareceu-lhe tão ruim...No fim ele não precisou se preocupar muito com o método, pois ao se aproximar um pouco mais da serpente, em preparação para a captura, após limpar os olhos ela havia simplesmente desaparecido. Por mais perigo que ela pudesse representar, ou fome que estivesse sentindo não se esforçou muito para tentar encontrá-la novamente...
Seu passatempo favorito era cogitar como havia chegado ali. As explicações seguiam-se em sua cabeça como se para distraí-lo da realidade. Talvez um acidente de avião, mas não estava ferido... Quem sabe tenha sido abandonado pelos companheiros? Mas que companheiros? Ora, os da excursão! Ou teria sido uma caravana...? Aviões, caravanas; tentar lembrar é um passatempo que, nessas circunstâncias, é tão mórbido quanto pensar em água.
De repente ele é forçado de volta à realidade, imobilizando-se como uma estátua. Sentindo uma presença às suas costas e como se a serpente houvesse voltado ele se lança a frente, sob protestos de todos os seus nervos, e ainda no chão, se vira para encarar o possível agressor. E lá está ela como se o simples pensamento a tivesse materializado ali. Mas havia algo de errado, a serpente que vinha em sua direção parecia aumentar de tamanho à medida que se aproximava. Ele espantado nada podia fazer e quando, por fim, o ofídio estava próximo o suficiente para que pudesse dar o bote, já estava do tamanho de um carro. Por mais que seus sentidos dissessem que aquilo não era real ele, apavorado, não se movia.
Estavam ambos imóveis à espera de um movimento, por mínimo que fosse. E foi a cobra quem tomou a iniciativa ao arreganhar as mandíbulas e exibir presas da espessura de troncos de árvores. Em segundos estaria terminado e ambos sabiam disso. Quando a cobra deu o bote fatal tudo escureceu e de um salto ele rolou para a direita e quase caiu no chão, tendo que se segurar do outro lado da cama para não cair. Tudo não passara de um pesadelo; suado, ofegante e com o corpo tomado por câimbras ele tenta se acostumar à escuridão de seu quarto e rapidamente as imagens e sensações antes tão vívidas se apagam de sua mente. Após se acalmar e secar nas cobertas ele tenta sem sucesso se lembrar do sonho que pudesse tê-lo deixado naquele estado. Por fim volta a dormir, embora no dia seguinte ele venha a se perguntar sobre a areia em sua roupa de cama e sobre seus sapatos.
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